Autismo: Quando o mundo é percebido de um jeito diferente
- Espaço Psiquismo

- 20 de jul.
- 6 min de leitura

Entenda como a criança com autismo percebe o mundo e como podemos ajudá-la a desenvolver suas potencialidades
Gina Maria G. Sommerfeld
Psicóloga Clínica e Social – CRP 05/32130
Especialista em Psicologia Social e Saúde Psicossomática
Coordenadora do Espaço Psiquismo – Saúde e Desenvolvimento Humano
Um novo olhar para compreender o autismo
Os avanços da ciência têm ampliado a compreensão sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), contribuindo para um olhar cada vez mais individualizado sobre cada pessoa. Hoje, compreender o autismo significa conhecer suas características e reconhecer que elas podem se manifestar de diferentes maneiras e intensidades.
Neste artigo, abordaremos conhecimentos atuais sobre o autismo, desde as contribuições da neurociência e do processamento sensorial até o desenvolvimento das habilidades sociais e a importância de avaliações e intervenções individualizadas. O objetivo é aproximar o conhecimento científico das famílias, educadores e profissionais, favorecendo a compreensão das necessidades e potencialidades de cada criança e a oferta de apoios que contribuam para seu desenvolvimento, autonomia e participação na vida familiar, escolar e social.
1 – O que a Neurociência nos ensina sobre o autismo
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento. As pesquisas em neurociência mostram que existem diferenças na forma como o cérebro da pessoa autista recebe, organiza e processa determinadas informações, o que pode influenciar a maneira como percebe o ambiente, se comunica, interage socialmente, aprende e responde às experiências do cotidiano.
Isso não significa menor capacidade, mas uma forma particular de funcionamento e desenvolvimento. Conhecer essas diferenças contribui para compreender determinados comportamentos e identificar estratégias mais adequadas às necessidades de cada criança.
“Um cérebro que funciona de maneira diferente não significa menos capacidade, mas uma forma singular de perceber, aprender e estar no mundo.”
2 – Uma forma singular de perceber e interagir com o mundo
Para muitas pessoas com TEA, situações que parecem simples no cotidiano podem exigir maior esforço e adaptação. Participar de uma conversa em grupo, lidar com uma mudança inesperada na rotina, permanecer em um ambiente muito movimentado ou compreender determinados sinais sociais são alguns exemplos.
Conhecer como a criança percebe, interpreta e responde a essas situações ajuda a compreender melhor suas reações e a encontrar estratégias que favoreçam sua comunicação, aprendizagem, interação e participação nos diferentes ambientes.
“Quando compreendemos como a criança percebe o mundo, começamos a entender melhor a forma como ela responde a ele.”
3 – Como o cérebro autista processa os estímulos sensoriais
O processamento sensorial é a maneira como o sistema nervoso recebe, organiza e interpreta as informações que chegam pelos sentidos, como sons, luzes, cheiros, sabores, texturas, movimentos e sensações corporais.
No TEA, podem ocorrer diferenças na forma de perceber e responder a esses estímulos. Algumas crianças apresentam maior sensibilidade a determinados sons, luzes ou texturas, enquanto outras podem buscar estímulos mais intensos ou apresentar menor resposta a certas sensações.
Essas características podem influenciar o comportamento e a participação no cotidiano. Uma reação intensa diante de um ambiente barulhento, por exemplo, pode estar relacionada a uma sobrecarga sensorial, e não simplesmente a um comportamento inadequado. Identificar essas situações permite oferecer adaptações e estratégias que proporcionem maior conforto e participação à criança.
“Antes de interpretar um comportamento, é importante compreender o que a criança pode estar sentindo e tentando comunicar.”
4 – Entendendo o que é o Transtorno do Espectro Autista
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR, o TEA caracteriza-se por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. Também podem estar presentes diferenças na forma de perceber e responder aos estímulos sensoriais.
O termo “espectro” indica que essas características podem se apresentar de diferentes formas e intensidades, resultando em necessidades de apoio distintas. Assim, duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar perfis de desenvolvimento bastante diferentes.
O diagnóstico é importante para compreender as características presentes e orientar os cuidados necessários, mas não determina, isoladamente, as capacidades e as possibilidades de desenvolvimento de uma pessoa.
“O diagnóstico ajuda a compreender necessidades; conhecer a pessoa permite enxergar possibilidades.”
5 – Cada pessoa com TEA é única: a importância de intervenções individualizadas
Não existem duas pessoas autistas exatamente iguais. Cada uma apresenta uma combinação própria de habilidades, interesses, potencialidades, desafios e necessidades de apoio.
Por isso, as intervenções devem ser planejadas individualmente, considerando a história de desenvolvimento da criança e a forma como ela se comunica, aprende, interage e funciona em seu cotidiano. A partir dessa compreensão, é possível estabelecer objetivos e estratégias baseados em evidências científicas e adequados às suas necessidades.
Esse olhar permite direcionar o cuidado para aquilo que realmente pode contribuir para o desenvolvimento e a qualidade de vida de cada criança.
“Se cada criança é única, o caminho para favorecer seu desenvolvimento também precisa ser construído de forma individualizada.”
6 – O desenvolvimento das habilidades sociais
As dificuldades na comunicação e na interação social estão entre as características do TEA e podem impactar a participação da criança em diferentes situações do cotidiano.
Habilidades como iniciar e manter conversas, fazer e responder perguntas, ouvir, esperar a vez, expressar sentimentos e necessidades, pedir ajuda, cooperar e lidar com situações sociais podem ser aprendidas e fortalecidas por meio de intervenções planejadas, como o Treinamento de Habilidades Sociais (THS).
O desenvolvimento dessas competências pode ampliar as oportunidades de interação, favorecer a construção de vínculos e contribuir para maior autonomia e participação nos contextos familiar, escolar e social.
“Desenvolver habilidades sociais é ampliar caminhos para comunicar-se, construir vínculos e participar do mundo com mais autonomia.”
7 – Compreender para acolher e desenvolver potencialidades
Um cuidado individualizado começa por uma avaliação realizada por profissionais qualificados e pode envolver diferentes especialidades, de acordo com as necessidades da criança. Nesse processo, são consideradas sua história de desenvolvimento, a observação clínica, instrumentos específicos e informações fornecidas pela família e pela escola.
A participação da escola contribui para compreender como a criança aprende, se comunica, interage, participa das atividades e se adapta à rotina. Quando essas informações são integradas à avaliação clínica e à escuta da família, é possível ter uma visão mais ampla de seu funcionamento nos diferentes contextos.
A partir dessa avaliação, são definidos os objetivos da intervenção e as estratégias mais adequadas para favorecer áreas importantes do desenvolvimento.
“Quanto melhor compreendemos a criança em seus diferentes contextos, mais podemos oferecer os apoios de que ela realmente precisa.”
8 – Um novo olhar sobre o autismo: da compreensão à prática
No Espaço Psiquismo – Saúde e Desenvolvimento Humano, buscamos transformar essa compreensão em ações concretas. O trabalho é desenvolvido por meio da parceria entre equipe terapêutica, família e escola, com o compartilhamento de orientações e estratégias que possam ser utilizadas nos diferentes ambientes da criança.
Dessa forma, habilidades trabalhadas durante os atendimentos podem ser levadas para situações reais do cotidiano, favorecendo a comunicação, as habilidades sociais, a aprendizagem, a regulação emocional e a autonomia.
Nosso objetivo é oferecer os apoios necessários para que cada criança possa desenvolver seus próprios recursos, fortalecer suas potencialidades e ampliar sua participação na vida familiar, escolar e social.
“Quando profissionais, família e escola caminham na mesma direção, o desenvolvimento ultrapassa as portas do consultório e ganha espaço na vida.”
9 – Conhecimento que transforma o olhar sobre o autismo
Este conteúdo foi elaborado com base em conhecimentos científicos contemporâneos sobre o Transtorno do Espectro Autista, considerando os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-5-TR e contribuições da literatura científica sobre neurodesenvolvimento, processamento sensorial, comunicação, interação social, habilidades sociais e intervenções individualizadas.
Nosso compromisso é aproximar o conhecimento científico da realidade das famílias, oferecendo informações claras e acessíveis que contribuam para uma compreensão responsável do autismo e para práticas de cuidado individualizadas e baseadas em evidências.
“A ciência amplia o conhecimento. A compreensão transforma o olhar. E um novo olhar pode transformar caminhos.”
Para finalizar
“Quando compreendemos o autismo para além do diagnóstico, abrimos espaço para enxergar a pessoa em sua singularidade, reconhecer suas potencialidades e oferecer os apoios necessários para que ela possa se desenvolver, conquistar autonomia e encontrar seu lugar no mundo.”
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2023.
DEL PRETTE, Almir; DEL PRETTE, Zilda A. P. Produções sobre habilidades sociais e Treinamento de Habilidades Sociais (THS).
RIESGO, Rudimar; GOTTFRIED, Carmem; KAPCZINSKI, Flávio (orgs.). Tratado sobre o Transtorno do Espectro Autista. Porto Alegre: Artmed.




Comentários