Setembro Amarelo: Prevenção, escuta e Rede de Cuidado

Como transformar a conscientização promovida pelo Setembro Amarelo em uma cultura permanente de prevenção e cuidado?

INTRODUÇÃO
O Setembro Amarelo tem um papel importante ao ampliar a conscientização sobre a prevenção do suicídio e favorecer o diálogo sobre saúde mental, sofrimento psíquico e busca por ajuda. Entretanto, a prevenção não pode ficar restrita a uma campanha ou a um único mês do ano.
Prevenir exige um compromisso contínuo com a promoção da saúde mental, a identificação do sofrimento, a escuta, o acolhimento, o acesso ao cuidado e o fortalecimento das redes de apoio. Essas ações precisam estar presentes durante todo o ano nos serviços de saúde, escolas, universidades, famílias, ambientes de trabalho e demais espaços de convivência.
Pensar a prevenção para além do Setembro Amarelo significa também compreender que o cuidado não começa somente quando uma crise já está instalada. Ele pode estar presente muito antes, no fortalecimento dos vínculos, na redução do estigma, na possibilidade de falar sobre sofrimento e na existência de caminhos acessíveis para buscar ajuda.
O SUICÍDIO COMO FENÔMENO MULTIFATORIAL
O suicídio constitui um importante problema de saúde pública e deve ser compreendido como um fenômeno complexo e multifatorial. Aspectos psicológicos, sociais, históricos, culturais, biológicos e ambientais podem interagir de maneira singular na trajetória de cada pessoa (PICCININI; FIGUEIRÊDO; MIRANDA, 2025).
Situações como perdas, conflitos, dificuldades econômicas, violência, discriminação, isolamento social, condições de saúde, transtornos mentais e uso prejudicial de substâncias podem estar associadas ao sofrimento e ao comportamento suicida, mas não estabelecem, isoladamente, uma relação de causa e efeito.
Também é importante considerar os fatores de proteção, como vínculos significativos, apoio social, acesso ao cuidado, recursos socioemocionais e disponibilidade de ajuda. Essa compreensão evita explicações simplistas e a atribuição indevida de responsabilidade a familiares, amigos ou profissionais.
O CUIDADO COMEÇA NA ESCUTA
Uma pessoa em sofrimento nem sempre consegue expressar diretamente aquilo que está vivendo. Mudanças no comportamento, na rotina e nos relacionamentos podem indicar a necessidade de maior atenção.
Escutar é oferecer espaço para que a pessoa possa falar e se sentir acolhida, sem julgamentos ou minimizações (PIMENTA et al., 2024).
Frases como “você precisa ser forte”, “pense positivo” ou “isso é apenas uma fase”, mesmo quando bem-intencionadas, podem minimizar a experiência de sofrimento.
Acolher significa demonstrar interesse, ouvir com atenção, reconhecer o sofrimento e favorecer a busca por ajuda quando necessário. Isso não significa assumir sozinho a responsabilidade pelo cuidado, mas contribuir para que a pessoa possa acessar os recursos e profissionais adequados.
FALAR SOBRE SUICÍDIO: SILÊNCIO NÃO É PREVENÇÃO
O medo de falar sobre suicídio pode contribuir para a manutenção do silêncio e do estigma.
Quando existe preocupação com alguém, conversar de maneira clara e respeitosa sobre sofrimento, desesperança ou pensamentos relacionados à morte pode favorecer a comunicação e a busca por ajuda.
Perguntar não significa induzir. Abordar o tema de maneira responsável pode abrir espaço para o acolhimento e para a procura por cuidado. Estudos também destacam a importância da criação de espaços de diálogo e promoção da vida, especialmente entre adolescentes (OLIVEIRA; REIS; BORGES, 2024).
Diante de situações de risco, é fundamental buscar avaliação e acompanhamento de profissionais e serviços adequados.
PREVENÇÃO E REDE DE CUIDADO
A prevenção do suicídio é uma responsabilidade compartilhada. Envolve profissionais de saúde, serviços, educação, assistência social, famílias, ambientes de trabalho e comunidade.
No SUS, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) integra diferentes serviços destinados ao cuidado em saúde mental. A Atenção Primária também possui papel relevante na identificação do sofrimento, no acolhimento, no acompanhamento e na articulação com outros pontos da rede (PIMENTA et al., 2024).
Os profissionais de saúde têm papel importante nesse processo, sempre respeitando as competências e os limites de cada profissão. Em situações de risco imediato, a prioridade deve ser a proteção da pessoa e o acesso aos serviços de saúde e emergência.
Construir uma rede de cuidado significa reconhecer limites, mobilizar os recursos necessários e favorecer a continuidade da assistência.
PREVENÇÃO NÃO COMEÇA APENAS NA CRISE
Prevenir também significa promover saúde mental, fortalecer vínculos, reduzir o estigma, desenvolver habilidades socioemocionais e criar espaços seguros para falar sobre sofrimento.
Uma revisão publicada nos Cadernos de Saúde Pública destaca a importância das habilidades socioemocionais na prevenção do comportamento suicida entre adolescentes, incluindo recursos relacionados à compreensão e regulação das emoções e às relações interpessoais (AVANCI et al., 2024).
Portanto, prevenir também é criar condições para que as pessoas reconheçam seu sofrimento, possam falar sobre ele e encontrem ajuda quando necessário.
PARA ALÉM DO SETEMBRO AMARELO
O Setembro Amarelo amplia a visibilidade de um tema fundamental, mas a prevenção precisa acontecer durante todo o ano.
Transformar conscientização em uma cultura permanente de cuidado significa construir ambientes nos quais falar sobre sofrimento seja possível, buscar ajuda seja reconhecido como parte do cuidado e existam redes preparadas para acolher e encaminhar.
Prevenir não significa culpabilizar. Nem todo sofrimento é visível, e nenhuma pessoa possui controle absoluto sobre as decisões e os comportamentos de outra.
Por isso, a prevenção precisa estar baseada em responsabilidade compartilhada, acesso ao cuidado, fortalecimento dos fatores de proteção e construção de redes de apoio.
Cuidar da vida é uma responsabilidade compartilhada. E o cuidado pode começar na escuta.
Referências
Avanci et al. (2024), Cadernos de Saúde Pública; Oliveira, Reis e Borges (2024), Fractal: Revista de Psicologia; Pimenta et al. (2024) e Piccinini, Figueirêdo e Miranda (2025), Physis; Rebeschini et al. (2026), Revista Brasileira de Epidemiologia; Brasil, Lei nº 15.199/2025.



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